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Casal produz espécies nativas da Amazônia e impulsiona reflorestamento

Ultima atualização: 3 de julho de 2026 17:09
Por admin
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Casal produz espécies nativas da Amazônia e impulsiona reflorestamento
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Pelo terreno, se acomodam mudas de açaí, cumaru, andiroba, preciosa, gombeira, itaúba. Em uma área antes degradada na comunidade de Jaderlândia, em Santarém, no oeste do Pará, surgem novas possibilidades de reflorestamento para a Amazônia.

O biólogo Sidcley Matos Pereira e a veterinária Adna Picanço decidiram construir um negócio ligado à recuperação do bioma. O Viveiro Florestal Ardosa nasceu em 2018, quando os dois buscavam uma alternativa de trabalho que não demandasse tantas viagens como antes, mas que os mantivesse na área ambiental.

O nascimento da filha Catarina reforçou a necessidade de fixar raízes e o sentido pessoal do negócio. “A gente queria construir algo junto, perto da família. E mostrar para ela [a filha] que existe um futuro sendo plantado aqui”, diz Adna Picanço.

11/05/2026 - Sidcley Matos Pereira e Adna Picanço, donos do Viveiro Ardosa. O Viveiro Florestal da Ardosa, em Santarém (PA), consolida um novo ciclo de crescimento ao transformar uma área anteriormente degradada em um polo estratégico de recuperação ambiental e economia sustentável. Impulsionada pelas conexões da COP30 e pelo apoio técnico do Sebrae, a iniciativa já projeta saltar de uma capacidade inicial de 100 mil para até 250 mil mudas de espécies nativas — como mogno e castanha-do-pará — já no primeiro semestre de 2026, com a meta ambiciosa de atingir meio milhão de mudas nos próximos anos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O casal afirma que o projeto também nasceu de uma percepção prática adquirida no trabalho com a fauna silvestre. “Todo animal resgatado, que precisava de cirurgia, estava em área degradada. A gente percebeu que não bastava só soltar os animais, precisava reflorestar para que aquela fauna tivesse alimento”, conta a veterinária.

Hoje, o empreendimento se consolidou como uma das referências regionais em restauração ecológica e produção de mudas nativas da Amazônia. Com cultivo de mais de 110 espécies, o viveiro passa por uma expansão acelerada.

Apenas no primeiro semestre de 2026, a produção deve alcançar entre 200 mil e 250 mil mudas. A média anterior era de 100 mil por ano.

O negócio também recebeu cerca de R$ 190 mil em equipamentos e estrutura da Conservação Internacional Brasil (CIB). O recurso será usado para ampliar áreas de sombreamento, construir um galpão de trabalho e instalar novas bancadas de produção.
 

11/05/2026 - O Viveiro Florestal da Ardosa, em Santarém (PA), consolida um novo ciclo de crescimento ao transformar uma área anteriormente degradada em um polo estratégico de recuperação ambiental e economia sustentável. Impulsionada pelas conexões da COP30 e pelo apoio técnico do Sebrae, a iniciativa já projeta saltar de uma capacidade inicial de 100 mil para até 250 mil mudas de espécies nativas — como mogno e castanha-do-pará — já no primeiro semestre de 2026, com a meta ambiciosa de atingir meio milhão de mudas nos próximos anos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O viveiro atende a diferentes demandas, a maior parte delas vinda de produtores que precisam recompor áreas degradadas depois de receber notificações ambientais. A preocupação, segundo Sidcley, é evitar modelos homogêneos de reflorestamento, que priorizam poucas espécies e empobrecem os ecossistemas.

“As pessoas chegam e se surpreendem quando veem que trabalhamos com tantas espécies. Geralmente os viveiros têm só aquelas que crescem rápido e dão retorno rápido. A gente quer atender restauração ecológica de verdade”, diz o biólogo.

“Tem espécies de crescimento rápido, espécies que precisam de sombreamento, espécies voltadas para produção de frutos ou madeira no futuro. A gente pensa nessa variedade justamente para atender à restauração ecológica, pensando na fauna e na diversidade dentro do projeto”, complementa.

A origem das sementes também é controlada. Como o viveiro tem licença do Ministério da Agricultura e Pecuária, todo o material precisa ter rastreabilidade. As sementes vêm de coletores, associações e laboratórios de diferentes regiões da Amazônia, incluindo os estados do Acre, Amazonas, Pará e de Mato Grosso.

A produção envolve ainda uma rede de pesquisadores, estudantes e universidades. O viveiro mantém parcerias com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que participa de discussões técnicas e ajuda na identificação de espécies, fungos e métodos de manejo.
 

11/05/2026 - Plantação de Cacau. O Viveiro Florestal da Ardosa, em Santarém (PA), consolida um novo ciclo de crescimento ao transformar uma área anteriormente degradada em um polo estratégico de recuperação ambiental e economia sustentável. Impulsionada pelas conexões da COP30 e pelo apoio técnico do Sebrae, a iniciativa já projeta saltar de uma capacidade inicial de 100 mil para até 250 mil mudas de espécies nativas — como mogno e castanha-do-pará — já no primeiro semestre de 2026, com a meta ambiciosa de atingir meio milhão de mudas nos próximos anos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Desmatamento e reflorestamento

Negócios como os do Viveiro Florestal Ardosa dialogam com problemas históricos do Brasil em conter a degradação de matas nativas e promover ações de recuperação florestal.

Dados divulgados recentemente no Relatório Anual do Desmatamento (RAD), do MapBiomas, indicam que o desmatamento no Brasil caiu 20,6% em 2025 na comparação com o ano anterior. Ainda assim, o país perdeu 984,7 mil hectares de vegetação nativa no período.

Na Amazônia, foram desmatados 289,4 mil hectares em 2025, uma queda de 23,5% na comparação com 2024. Ainda assim, a floresta perdeu, em média, 792 hectares por dia. A estimativa é de que o bioma já tenha perdido mais de 52 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, o que representa aproximadamente de 12% a 16% da área original.

O Pará é um dos estados mais afetados. Entre 2019 e 2025, o estado concentrou mais de 2 milhões de hectares desmatados, embora tenha registrado redução de 40% em 2025.
 

O principal instrumento do governo federal para recuperar áreas degradadas é o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente.

A meta nacional estabelecida pela Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg) é recuperar 12 milhões de hectares até 2030, dos quais 4,8 milhões de hectares estão na Amazônia.

A plataforma Observatório da Restauração – hospedada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura – monitora o progresso das iniciativas de restauração em andamento no país. No momento, 39.710 hectares na Amazônia estão nesse processo, sendo 11.150 hectares no Pará.

Ciência e restauração

O pesquisador Rafael Rode, professor do Instituto de Biodiversidade e Florestas da Ufopa, afirma que iniciativas como o Viveiro Florestal Ardosa se tornaram estratégicas diante do passivo ambiental acumulado na Amazônia.

Segundo ele, com o avanço histórico do desmatamento, é preciso investir em recuperação com rigor científico e planejamento ecológico.

“A recuperação dessas áreas envolve conhecimento específico para manter o equilíbrio ambiental. Sem um trabalho embasado cientificamente, você pode ter assoreamento de rios, erosão e perda das propriedades do solo”, explica Rafael Rode.

12/05/2026 - Santarém-  Entrevista com Rafael Rode, professor de Manejo Florestal e diretor do Instituto de Biodiversidade e Florestas da UFOPA. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Ele destaca a importância de se priorizar espécies nativas. “Muitas vezes se usa espécie exótica de crescimento rápido, mas isso pode gerar desequilíbrios e até dominar o ambiente. É preciso cuidado técnico.”

O professor coordena pesquisas em sistemas agroflorestais e reflorestamento na fazenda experimental da universidade, com foco em sustentabilidade e geração de renda.

“Tentar conciliar recuperação ambiental com ganho econômico é o mais importante hoje. Você coloca espécies que também geram renda, como cumaru e andiroba, e reforça a concepção de que a floresta plantada pode gerar economia e mais ganhos do que a floresta derrubada”, avalia.

Bioconomia

O crescimento de negócios ligados à restauração ambiental e ao uso sustentável da floresta está dentro de uma concepção mais ampla sobre bioeconomia na Amazônia.

Professora e doutora em ciências agrárias da Ufopa, Patrícia Chaves de Oliveira explica que esse modelo econômico depende diretamente da natureza e dos modos de vida das populações locais.

12/05/2026 - Santarém-  Entrevista com Patrícia Chaves de Oliveira, professora e doutora em Ciências Agrárias da UFOPA. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“A bioeconomia é baseada na biodiversidade. Ela pode envolver plantas, pesca, turismo de base comunitária, artesanato e produtos florestais”, diz Patrícia.

“A biodiversidade da Amazônia permite diferentes cadeias econômicas. Mas é preciso garantir que essas populações também sejam donas dos próprios negócios e não apenas fornecedoras de matéria-prima”, complementa.

Segundo o diretor técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Bruno Quick, projetos liderados pela instituição têm procurado fortalecer essas cadeias econômicas sustentáveis.

Exemplos são o Bioma Amazônico e a Iconografia Local, que valorizam identidades e conhecimentos tradicionais da região.

“Esses projetos fazem parte do propósito de transformar a riqueza cultural e ambiental da Amazônia em um diferencial competitivo para os produtos locais, o que gera valor agregado, abre novos mercados e promove inclusão social e econômica”, afirma Bruno Quick.

Para o diretor, é preciso repensar a matriz econômica que orienta há décadas o desenvolvimento da região. “A bioeconomia traz a compreensão de que outro modelo de crescimento é possível, onde a floresta em pé ganha valor real.”
 

11/05/2026 - O Viveiro Florestal da Ardosa, em Santarém (PA), consolida um novo ciclo de crescimento ao transformar uma área anteriormente degradada em um polo estratégico de recuperação ambiental e economia sustentável. Impulsionada pelas conexões da COP30 e pelo apoio técnico do Sebrae, a iniciativa já projeta saltar de uma capacidade inicial de 100 mil para até 250 mil mudas de espécies nativas — como mogno e castanha-do-pará — já no primeiro semestre de 2026, com a meta ambiciosa de atingir meio milhão de mudas nos próximos anos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Valor que, segundo o biólogo Sidcley Matos Pereira, cresce à medida que é compartilhado com outros trabalhadores e famílias da comunidade.

“Sem os coletores de sementes não existe muda, não existe viveiro. A gente valoriza toda essa cadeia, desde quem coleta na floresta até quem organiza as mudas no caminhão para chegar ao cliente”, diz.

“Família é muito importante nesse processo. E a família aumenta quando temos uma conexão com as pessoas que produzem junto. Não valorizamos apenas a nossa família. Valorizamos também as deles”, finaliza.

* A equipe de reportagem viajou para o Pará a convite do Sebrae.

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